*Destaque, Opinião, Política Caiado e o Preço dos Votos Radicais: Entre a Anistia e a Ilusão Presidencialista

Quanto vale o voto dos radicais para Ronaldo Caiado? A resposta veio cristalina em sua participação no Roda Viva de 9 de junho: o governador de Goiás está disposto a pagar qualquer preço, inclusive o da própria democracia, para conquistar o Palácio do Planalto. Sua promessa de “anistia ampla, geral e irrestrita” como “primeiro ato” presidencial não é apenas irresponsabilidade eleitoral – é a confissão de quem compreendeu a matemática do radicalismo brasileiro.

A naturalidade com que Caiado abraça o revisionismo histórico revela seu cálculo político. Ao minimizar a ditadura militar como um “movimento” provocado por “circunstâncias” e afirmar que “você tem que analisar o fato de 1964 com os olhos de 1964”, o governador não demonstra ignorância – demonstra estratégia. É a mesma lógica que o leva a evitar responder se houve tentativa de golpe em 2022. Para Caiado, a verdade histórica é menos importante que a conveniência eleitoral.

Em um cenário onde 66% dos brasileiros rejeitam Lula e 65% rejeitam Bolsonaro, Caiado se apresenta como alternativa “pragmática”. Mas sua proposta de anistia revela a falácia dessa narrativa. Não há nada de centrista em perdoar golpistas. O que ele oferece não é terceira via, mas primeira classe para o extremismo, com perdão presidencial incluído.

Pesquisas no DF já mostram os frutos dessa estratégia: Caiado aparece em terceiro lugar com 21,5%, pescando no mesmo aquário do bolsonarismo enquanto se vende como “moderado”.

Talvez a mais reveladora das ilusões de Caiado seja sua promessa de “resgatar o presidencialismo”. Durante o programa, o governador sugeriu que sua simples eleição seria capaz de transformar a relação entre Executivo e Legislativo, como se pudesse, por decreto ou carisma pessoal, reverter décadas de fortalecimento parlamentar e acabar com a tutela que o Congresso exerce sobre o Executivo.

Essa perspectiva revela não apenas um desconhecimento preocupante sobre o funcionamento institucional brasileiro – o que é incongruente com quem teve cinco mandatos como deputado federal e mais um de senador, mas uma perigosa tendência autoritária. Caiado parece acreditar que pode governar como se o parlamento fosse um obstáculo a ser superado, não um poder constitucional a ser respeitado. É a mesma mentalidade que levou aos ataques de 8 de janeiro – a ideia de que o Executivo pode e deve se sobrepor aos demais poderes.

A estratégia é eleitoralmente inteligente: com Bolsonaro inelegível, existe um “mercado” de votos radicais órfãos. Ao prometer anistia, abraçar o revisionismo e fantasiar sobre um presidencialismo imperial, Caiado sinaliza para esse eleitorado que está disposto a ser seu novo representante, mesmo que isso signifique ir “na direção contrária ao Poder Judiciário”, como ele próprio admitiu.

O aspecto mais perigoso da estratégia de Caiado é sua capacidade de normalizar o extremismo através do discurso da moderação. Ao se apresentar como alternativa “viável” aos extremos, ele oferece respeitabilidade para propostas antidemocráticas. Sua retórica de “virar a página” esconde uma verdade sombria: está disposto a sacrificar justiça e responsabilização democrática no altar de sua ambição.

A candidatura de Caiado representa um teste crucial: conseguirá o eleitorado distinguir entre verdadeira terceira via democrática e oportunismo disfarçado de moderação? Será que a sociedade brasileira aceitará que anistia a golpistas seja o preço da “pacificação”?

Ronaldo Caiado pode ter encontrado uma fórmula eleitoral eficiente ao cortejar radicais com promessas de anistia, revisionismo histórico e fantasias presidencialistas. Mas o preço dessa estratégia pode ser alto demais para a democracia pagar. E isso não é pragmatismo – é irresponsabilidade histórica que ameaça as bases do sistema democrático brasileiro.

Por Marcos Marinho

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